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DF 2010 Voto de legenda

O atual sistema de votação em vigor no Brasil pode ser chamado de voto uninominal em lista aberta. Para candidatar-se, um cidadão precisa estar filiado a um partido político, e este o inscrever na nominata de seus candidatos durante a Convenção Partidária, realizada no mês de junho do ano eleitoral. A agremiação política apresenta, então, aos sufrágios uma lista, cuja ordem será estabelecida, após o pleito, segundo a votação nominal de seus componentes (no sistema de lista preordenada, é a Convenção que escolhe a ordem de preferência na lista). O numero de cadeiras obtida pelo partido será obtido pelo resultado da soma dos votos (nominais + legenda) dividido pelo quociente eleitoral (a divisão do número total de votos válidos pelo número de cadeiras a serem preenchidas). Votar “na legenda” é escolher, no voto proporcional, somente os dois dígitos do partido, sem o complemento de dois ou três outros dígitos que indicam o nome do candidato a Federal ou Distrital (Estadual). Votar na legenda é, ao mesmo tempo, fazer uma opção partidária, e deixar aos outros eleitores deste partido (ou de candidatos deste partido) a escolha dos nomes dos representantes.

Em 2010, pouco mais de 8 % dos eleitores do Distrito Federal preferiram, na eleição proporcional (deputados), votar num partido do que num candidato. Foram, para Distrital, 114.605 votos, e para Federal, 120.977 votos. Algumas informações interessantes podem ser extraídas destes números.

Primeiramente, o voto em legenda não apresenta muita oscilação nas diferentes zonas eleitorais do DF. Para Distrital, os dois maiores percentuais (9,47 e 9,23%) são verificados nas Asas Norte e Sul, e o menor (7,38%) na ZE 10 (N. Bandeirantes/Candangolândia/Riacho Fundo). Para Federal, é Ceilândia Norte (9,48%) que mais votou na legenda, e o Guará (7,64%) menos. Mas os picos positivos/negativos em relação às médias (8,14% Distrital, 8,60% Federal) são estreitos.

Gráfico do voto em legenda por ZE > DF 2010 voto de legenda (apertar a seta voltar após leitura).

Em termos proporcionais, os partidos de esquerda se destacam. Agremiações radicais com PCB, PCO e PSTU apresentam grande percentual de voto em legenda, explicáveis tanto pelo pequeno volume de votos totais (PCB: 778 votos, PCO: 557 votos, PSTU: 966 votos), quanto pelo engajamento da militancia do partido, que está consciente que é impossível a agremiação eleger um representante. O PV e o PSOL são objetos de gráficos específicos mais adiante nesta matéria.

Gráfico da proporção do voto em legenda por partido > DF 2010 percentual legenda por partido (apertar a seta voltar após leitura).

Em volume de votos, a legenda PT é ultrapassada, pela primeira vez na história eleitoral do DF, tanto para Distrital que para Federal, por um outro partido. É o Partido Verde, que obtém resultado semelhante para os dois cargos. O critério utilizado para o ranking do gráfico é o do voto de legenda para Distrital, em razão do maiores número de candidatos e de opção. A quase totalidade dos partidos tem percentuais equivalentes entre legenda Distrital e Federal, exceto PT, PSDB, PDT, DEM e PSB. São estudados a seguir.

Gráfico de volumes de votos de legenda > DF 2010 voto de legenda (apertar a seta voltar após leitura).

PV: o “efeito Marina”

O Partido Verde (PV) foi a agremiação que mais recolhe votos de legenda nas eleições 2010. Foram 24.402 para Distrital (+ 28.532 nominais) e 25.978 para Federal (+15.513 nominais). O PV tinha “chapa vertical” (como o PSOL), ou seja candidatos a todos os cargos, de Presidente da República (Marina Silva) a Deputado Distrital. Havia então possibilidade para o eleitor de digitar “43” nas sete votações.

O melhor nome Federal foi André Lima (7.158 votos), como votação expressiva na Asa Norte, particularmente na L2 Norte e na Unb. No entanto, sua maioria votação proprocional foi QL 16 do Lago Norte (3,22 %).

Henrique Ziller foi o maior expoente do PV na disputa Distrital, com 4.456 votos, fortemente centralizados no Plano Piloto, nos Lagos Norte e Sul e no Cruzeiro/Sudoeste. Foi o quinto mais votado na 102 Sul e na 604 Sul, e obteve votação superior a 2 % em vários locais do Lago Norte.

Eduardo Brandão foi candidato a Governador, obtendo a 4a posição com 78.837 votos. Ficou em 4o em todas as Zonas Eleitorais, mas conseguiu ultrapassar Dona Weslian em alguns poucos locais da Asa Norte.

Marina Silva foi a candidata à Presidência mais votada no DF (única entidade federativa do Brasil a preferir o Verde), com 611.362 votos, ganhando em 19 das 21 ZEs, perdendo Planaltina e Brazlândia para Dilma. Obteve seu melhor resultado no conjunto Cruzeiro/Sudoeste/Octogonal/SMU, com 46,67 % dos votos, em particular, e talvez de forma surpreendente, nos redutos militares, onde conseguiu seus melhores locais: 56,18 % no Setor Militar Complementar, 55,85 % no Residencial Santos Dumont (ZE 04) e 54,64 % no SMU.

O gráfico a seguir indica os comparativos de votação entre Marina, Eduardo Brandão e os votos de legenda Distrital e Federal. Com poucas diferenças (levando em consideração que a “escala” não é a mesma, as linhas de Marina e de Brandão foram “ajustadas” proporcionalmente às da legenda para melhor visibilidade), é clara a corelação entre as votações. Algumas situações (Lago Sul, Samambaia, por exemplo) mereceriam um estudo mais amplo por parte do PV.

Gráfico legenda PV > DF 2010 legenda PV (apetar a seta voltar após leitura).

PT: A tradição do 13

Apesar de aparecer em segundo nos votos de legenda, o Partido dos Trabalhadores foi o mais votado, na soma de legenda + votos nominais, no DF, com grande vantagem. Foram 216.382 votos para Distrital (em segundo, o DEM com 102.840) e 374.806 votos para Federal (segundo PDT com 285.404). Chico Leite foi o Deputado Distrital mais votado no DF, e Paulo Tadeu o segundo Federal preferido dos eleitores. Há uma diferença importante em volume de votos de legenda Distrital/Federal (23.519/15.369) que, contrariamente à praxe, é superior para os Distritais, onde há mais escolha por parte do eleitor. No entanto, o gráfico, deixa absolutamente claro que as curvas, associadas aos candidatos majoritários (Agnelo, candidato a Governador mais votado com 676.394 votos; e Dilma, segunda candidata mais votada para Presidente com 462.441 votos), são quase paralelas, com pouquíssimos “casos” particulares em Sobradinho, Planaltina, Brazlândia e Ceilandia Norte e Sul.

Gráfico legenda PT > DF 2010 Legenda PT (apertar a seta voltar após leitura).

PSDB: Distrital de um lado, Federal de outro

O PSDB obteve, com 117 votos de diferença com o PT, a segunda maior votação de legenda para Deputado Federal, com 15.486 votos, e a terceira para Distrital com 8.681. Tinha candidato a Presidente da República (José Serra, 354.070 votos) e a Senador (só uma, Abadia, com registro de candidatura indeferido no dia da eleição, 348.842 votos), mas não tinha a Governador.

Não elegeu Deputado Federal, tendo o candidato mais votado, Virgílio Neto, realizado 17.871 votos, e um Distrital só, Washington Mesquita (21.111 votos), hoje no PSD.

Há uma grande diferença de volume entre os votos de legenda Distrital/Federal, mas esta diferença é “lógica”, parecendo indicar que eleitores de Distrital do PSDB, por desconhecimento dos candidatos a Federal ou por falta de opção, teriam indicado a legenda. É a explicação comum para estes casos, mas não funciona para o PSDB no DF em 2010. O gráfico é o mais estranho da série, e também o que contém mais linhas, na busca de correspondências entre os votos nominais e de legenda.

Duas constatações principais surgem do gráfico: José Serra não influencia o voto de legenda do PSDB (nem os nominais, por sinal), e as curvas de legenda Distrital/Federal são muito diferentes. No entanto, há uma clara correspondência entre os votos Abadia/Virgílio Neto/legenda Federal. Mas a proveniência do voto de legenda Distrital (bem como os nominais de Washington Mesquita) é muito diferente. A linha de Raimundo Ribeiro, segundo Distrital mais votado, não foi incluída, mas também não segue nenhum padrão das outras presentes. O PSDB precisa estudar de perto estas fortes discrepências.

Gráfico legenda PSDB > DF 2010 Legenda PSDB (apertar a seta voltar após leitura)

PDT: Reguffe, com ou sem número.

O PDT não tinha candidato próprio à Presidência nem ao Governo do Distrito Federal. Seu maior nome na disputa era o ex-Governador do DF Cristovam Buarque, candidato à reeleição no Senado Federal, que obteve 833.480 votos, lembrando que havia possibilidade, para o eleitor, de votar em dois nomes. Reguffe, então Deputado Distrital, foi eleito Federal com a maior votação proporcional do Brasil, 266.465 votos (18,95 %). O Professor Israel Batista herdou o assento do PDT na Câmara Legislativa, com 11.349 votos, usando um número na urna propositalmente associado ao do futuro Federal (1234 Reguffe, 12345 Prof Israel).

Quanto aos votos de legenda, o PDT obteve 8.269 para Distrital, e 14.704 para Federal. O gráfico (que não inclui a linha de Cristovam por ele ser parecida com a de Reguffe) mostra claramente que a opção pelo voto “12” para Federal indica o desconhecimento do número de Reguffe por parte destes eleitores. As duas linhas Reguffe/legenda Federal são exatamente inversas. A linha Reguffe é similar à Cristovam, o PDT não tinha outros nomes de destaque no pleito Federal, e as Zonas onde Reguffe obteve menos expressão são as mais distantes do Plano Piloto, foco de suas campanhas.

Gráfico legenda PDT > DF 2010 Legenda PDT (apertar a seta voltar após leitura).

PSC : A legenda dos Roriz

O Partidos Social Cristão ganhou visibilidade inédita no DF com a chegada do casal Roriz a seus quadros em 2009. Com 6.541 votos na legenda Federal e 7.418 na Distrital, o “20” foi o quinto mais votado na média. Sem candidato a Presidência nem a Senador, o PSC tinha em Dona Weslian (substituta de última hora de seu esposo Joaquim) Roriz sua única candidata majoritária.

O PSC não elegeu Deputado Federal (os 51.966 votos de Laerte Bessa não foram suficientes) e mandou à Câmara Legislativa Wellington Luiz, com 10.333 votos (está hoje no PPL). Mas tanto o Laerte quanto o Wellington tiveram votação de origem muito diferente à de Weslian e à do PSC. O gráfico indica claramente o paralelismo dos votos Roriz/Legenda Federal/Legenda Distrital. A linha Wellington não foi incluída, mas difere completamente deste padrão. A linha Laerte mostra o descompasso. Já a votação de Jaqueline Roriz (eleita Federal pelo PMN) mostra uma perfeita similitude. Lembrando que as linhas não têm valores iguais, não podendo ser comparadas entre si em termos relativos, mas sim em vetores direcionais de traçado.

Gráfico legenda PSC > DF 2010 Legenda PSC (apertar a seta voltar após leitura)

PSOL: Toninho mostra o caminho

Quase 200 mil eleitores escolheram o 50 para Governador, personificado por Toninho do PSOL. O partido teve um bom recall no DF da candidatura de Heloisa Helena à Presidência em 2006, e a militância aguerida esteve nas ruas divulgando as idéias diferentes da agremiação. O maior partido realmente ideológico do Brasil não elegeu nem Federal nem Distrital no DF. Maninha obteve 12.860 votos para a Câmara Legislativa, e Wellington 3.763 para a dos Deputados.

No gráfico, sem surpresas, três linhas paralelas, quase idênticas. Só há descrepência em Taguatinga, tanto na ZE 03 quanto na ZE 19. Toninho realiza um bom resultado, mas as legendas não. Por sinal, para Distrital, Maninha, que tinha sido a segunda mais votada no DF em 1998 (estava então no PT) e que tinha boa implantação em torno da Praça do Relógio, também não obtive boas votações em 2010. Uma questão a estudar pelo partido amarela e laranja.

Gráfico legenda PSOL > DF 2010 legenda PSOL (apertar a seta voltar após leitura)

Na leitura do gráfico dos volumes de votos de legenda por partido, dois casos atraem também a atenção: DEM e PSB, que tiveram no mínimo duas vezes mais votos de legenda para Federal de que para Distrital.

O DEM foi duramente atingido pelos desdobramentos da Caixa de Pandora. José Roberto Arruda, Paulo Octávio e Leonardo Prudente não participaram da eleição. Alberto Fraga, após tentar viabilizar sua candidatura ao GDF, acabou saindo para Senador na chapa encabeçada por Roriz e obteve 511.517 votos. Adelmir Santana, então Senador, concorreu à Câmara dos Deputados, recebendo a confiança de 45.712 eleitores. Eliana Pedrosa, para a Câmara Legislativa, somou 35.387 votos, elegendo-se em companhia de Raad Massouh. A primeira hoje está no PSD, o segundo no PPL.

O Gráfico do DEM mostra relativa similitude entre as linhas, mas com pontos que mereceriam estudo mais detalhado. As linhas Fraga/legenda Federal são bastante parecidas, mas faltam explicações para as diferenças de Sobradinho, do Gama e da Vicente Pires. Eliana/legenda Distrital também têm muitos paralelos, mas a boa votação da candidata lilás em Planaltina e Brazlândia não se respalda em nenhum outro vetor. A votação de Adelmir Santana é a menos alinhada às outras.

Gráfico legenda DEM > DF 2010 DEM Legenda

O PSB é o partido que teve a maior diferença entre os votos de legenda Distrital (2.006)/Federal (7.236). Rodrigo Rollemberg concorreu vitoriosamente ao Senado, com 738.575 votos, deixando a vaga na Câmara dos Deputados. Gastão Ramos só obteve 3.540 votos para Federal, enquanto Joe Valle e o Guarda Jânio disputaram a cadeira na Câmara Legislativa voto a voto, o defensor da agricultura e do meio-ambiente levando a melhor por 141 votos (13.876 a 13.735).

O gráfico é o menos nítido de todos já apresentados. Joe Valle e o Guarda Jânio são claramente complementares e não concurenciais. É possível que as duas linhas muito amplas dos dois Distritais expliquem, justamente, a linha bastante plana da legenda Federal. A linha Rollemberg não traz uma diretriz às outras do PSB. A baixa representatividade da legenda Distrital não permite levar sua linha verdadeiramente em conta.

Gráfico legenda PSB > DF 2010 legenda PSB